Oi! Bem-vindo ao Diário de Viagem - Porteira da Fantasia. Este blogue tem como objetivo tornar permanentemente disponíveis os textos da Agenda do site www.porteiradafantasia.com, bem como as fotos das visitas que realizo ao longo do ano. Obrigada pela sua visita.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Maratona Literária

No dia 23 de abril aconteceu a Maratona do Livro, organizada pelo IEL, em companhia da AGEs. Fui convidada para participar aqui em Novo Hamburgo. Dê uma olhada de como foi o meu encontro e depois confira o depoimento dos outros autores clicando AQUI.

"Ontem, dia 23 foi um dia especial. E não porque fosse o “Dia do Livro”. Sou meio ruim em datas e para quem é doida por livros, como eu, todos os dias são “dia do livro”. Mas nem sempre eu posso falar dessa paixão com tanta liberdade e tempo quanto foi ontem e foi isso o que tornou esse momento especial.
Saber que existem pessoas que acreditam tanto na força do livro, também fez deste dia 23 um dia diferente. Em meio a tanta violência, tanta incompreensão, tanto desamor, tanta coisa virtual e descartável, fútil e descartável, volátil e descartável, saber que existem pessoas que fazem questão de ter um espaço para algo que vai na contramão dessa realidade, como é o livro, me dá sempre uma sensação de amparo e conforto. A gente pensa que vai dar certo; que vai dar para fazer. Vai dar para construir uma sociedade mais justa, uma realidade mais humana, um futuro mais possível.
O espaço da Biblioteca Comunitária Érico Veríssimo, bairro Santo Afonso em Novo Hamburgo, uma das tantas tentativas de tornar nosso cotidiano menos assustador, e a que chamamos de “Território da Paz”, é enxuto, mas real e realizado. São dois salões, um para os encontros das pessoas, outro com as estantes cheias de livros. A maior parte deles são usados, livros que vieram de outros lugares e, sobretudo, de outros tempos. Foi rigorosamente limpo e arrumado, como a casa de uma pessoa que se prepara para receber visitas muito queridas. E as visitas muito queridas fomos nós: escritora e leitores. No fundo, todos leitores, na verdade, que o escritor é só uma versão um pouco diferente do leitor comum. Estiveram presentes o Secretário Municipal de Cultura, Carlos Mossman, a presidente da Academia Literária do Vale do Sinos, Renate Gigel, pessoas ligadas à Semec, à cultura, à mídia, e à leitura. Estavam professores e alunos de duas escolas da região, A EMEF Harry Roth e a EMEF Caldas Júnior. Conversamos sobre livros. Sobre como se faz um livro. Como se produz um livro. Porque se escreve. Quem somos nós, escritores, leitores, sujeitos do mundo - e as horas passaram voando e a gente nem percebeu. Bom, eu não percebi. E tenho certeza de que muitas crianças também. Foi muito legal. Foi como reencontrar velhos amigos, só eram todos novos.
E quando saí para o dia ensolarado, ficou a confiança de sempre: a de que toda biblioteca é um território de paz. Um valente e desafiador território de paz. A História prova que o livro resiste ao tempo e aos desafios do cotidiano. O conhecimento resiste. A sabedoria resiste. O sonho resiste. Talvez essa seja uma confiança meio fantasiosa, mas o que mais se pode pedir para uma pessoa que vive imaginando histórias?"

A biblioteca, organizada para o encontro

Houve até sessão de autógrafos

Secretário de Cultura de Novo Hamburgo também
compareceu ao evento

O pessoal que cuida da Biblioteca Comunitária Érico Veríssimo

Todos os clãs

Rolou de tudo na IIIª Odisseia de Literatura Fantástica: palestra, bate papo, tititi, fofoca, amizade, muita festa. Até livro teve, conversa sobre cinema, discussão séria em torno da Literatura de todas as idades. Aliás, eu achei que essa foi uma tônica do encontro: não ouvi o chororó costumeiro "ninguém gosta da gente". Ouvi gente discutindo Literatura. Programas de leitura. Qualidade gráfica. Papo de quem cresceu muito de 2012 para cá.


O evento, que começou na sexta-feira dia 11 com o dia das escolas, do qual participei ao lado de Felipe Castilho, autor de "Ouro, Fogo e Megabytes". O encontro reuniu, ao longo de três dias, centenas (milhares? Não sei, ainda não temos uma estimativa oficial) de pessoas que gostam de ler, escrever, ver e ouvir sobre livros e filmes de cunho Fantástico. A feira de livros do evento cresceu de maneira expressiva desde a primeira edição. E se na primeira Odisseia (em 2012) acontecia uma palestra de cada vez, este ano havia duas rolando ao mesmo tempo: pura contraprogramação. A gente não sabia para onde ir. Até eu fiz parte da contraprogramação no sábado, numa mesa redonda com Nikelen Witter e Ana Lúcia Merege, sobre Literatura Infanto-Juvenil. Ao mesmo tempo, logo ao lado e embaixo, acontecia uma conversa sobre o programa Mochila Literária

Houve um excelente palestra com o Tabajara Ruas, na noite de sexta-feira. O Tabajara é mais conhecido por suas histórias sobre a revolução farroupilha e seu trabalho no cinema, mas depois de falar de maneira apaixonada sobre a vida de H.P.Lovecraft, ele comentou que tem alguns livros no gênero Fantástico. Para garantir a leitura, é claro, na manhã seguinte fui procurar "Fascínio" e "A região submersa", que encontrei. Amo Porto Alegre por essas coisas. A Porto Alegre dos livros, do primeiro amor da minha vida, das coisas acontecendo ao mesmo tempo. Das segundas chances. Dos sebos. Da vida.
O lançamento de O Coração de Jade foi meio às escuras, reconheço, mas o livro ficou por lá o tempo todo. É sério, o "às escuras"! O Memorial do Rio Grande do Sul, este ano, reservou o térreo para a Odisseia. O térreo do antigo Correios da Praça da Alfândega é um labirinto fácil de corredores largos e baixos, e dois salões de pé direito muito alto, iluminado por amplas clarabóias que os fecham à altura do segundo andar. Gosto muito do térreo com suas obras de arte nas paredes. Só que... por razões que a minha razão desconhece oficialmente, não havia ar condicionado, e no recanto onde estava a mesa dos independentes não havia luz elétrica, a não ser a da clarabóia lá no alto. Quando o sol desaparecia por trás do Guaíba e o crepúsculo tomava conta... as sombras esgueiravam-se de seus redutos embaixo das velhas escadas de ferro, do poço do elevador, e se acolheravam no saguão onde os livreiros se entreolhavam meio ressabiados. Em evento de Literatura Fantástica, nunca se sabe se o colega de em frente não vai saltar subitamente sobre a mesa e uivar, ou se o visitante não vai exibir, inesperadamente, um par de caninos afiados e brancos em um sorriso muito vermelho em um rosto excessivamente pálido.



Assim que, lá pelas seis horas, o saguão onde estávamos ficava sombrio. Escuro. Quente e abafado. A gente olhava para o corredor ao lado, iluminado com as luzes indiretas, com uma certa inveja. E daí que no segundo dia, quando o Bando Celta começou a tocar e as meninas organizaram uma roda para dançar, eu pensei... é como se estivéssemos em uma das antigas cavernas cheia de desenhos nas paredes. E lembrei imediatamente dos bisontes da Cueva de Altamira, das Vênus Paleolíticas, do Xamã de Les Trois Frères, das danças de roda sagradas: ali estavam todos clãs da tribo do Fantástico, dos feiticeiros aos cientistas, todos os contadores de histórias dançando, cantando, batendo palmas. Fomos e viemos e como numa dança circular, passamos pelo mesmo ponto, mas mais adiante no Tempo, como numa espiral.  Na última tarde, também fui para a roda. A pele dos braços arrepiava cada vez que a gente abria e fechava o círculo para deixar alguém entrar. Pelume sentiu-se em casa. E eu também.
           Será, César, Duda, Christopher, Nikelen e Cristian, será que vocês têm noção real do que foi? Noção que não se tira dos números (estes são para quem não estava lá, para quem não foi e que vai se contentar com o algarismo, essa invenção da modernidade para dimensionar o palpável), mas das sensações, das lembranças e da alegria? Não sei. Mas sei que fomos, por um momento, tão velhos quanto os contadores de histórias das tribos paleolíticas e tão jovens quanto as crianças do futuro, que ainda irão ouvir falar dessas tardes especiais, onde histórias foram imaginadas, contadas, trocadas e transformadas.
Quando os clãs se reúnem, sempre fica um sabor de comunhão.


Como se fosse a minha casa

Quando fechamos a visita, eu me preocupei. Afinal, estava sendo confirmada a minha visita à sete turmas que ainda não tinham lido A Máquina Fantabulástica. A visita foi combinada para acontecer durante a feira do livro da escola, e coincidir com a compra dos volumes pelos alunos. E sempre que acontece de eu visitar turmas que ainda não leram o livro escolhido, fico preocupada. Acho que vai ser complicado.
Só achei.
É que eu não tinha me dado conta: o Colégio Anchieta é de educação jesuíta. E por muitas razões, estar em território jesuíta para mim me dá uma paz e uma tranquilidade muito grande. É como estar em casa. E não poderia ser diferente: coincidiu, se é que existem coincidências, que justamente no dia da minha visita, a Santa Sé, em Roma, anunciava a canonização do Padre José de Anchieta. Então, não era só estar em casa, mas estar em uma casa em festa dupla: por causa da canonização deste que agora é o primeiro santo brasileiro (pelo menos oficial, porque popularmente temos muitos mais) e por causa da XV Semana Literária. E mal pisei no prédio onde ia ser o bate papo, vislumbrei, na entrada do pequeno mas excelente museu de História Natural da escola, que fica justamente no corredor da entrada do salão, uma enorme harpia, chamando a atenção, convidando e recepcionando os visitantes. Aí sim eu relaxei. Foi como se a escola inteira me dissesse um grande "olá".
O "bem vinda" ficou por conta da criançada que me sabatinou sobre minha carreira e A Máquina Fantabulástica, sob a promessa de não revelar spoilers - o que sempre é difícil. Foram três encontros muito bacanas, com 4º anos super interessados, composto por alunos-leitores que fazem do livro um dos seus amigos. Me chamou a atenção a disciplina e a ordem, o interesse, a curiosidade e o carinho das crianças que, depois do bate-papo ainda davam uma "fugidinha" para conversar comigo mais de perto e ter respondidas suas últimas perguntas. Saí da lá muito feliz. Se 2014 for regido por essa visita intensa e deliciosa, será um ano cheio de trabalho e de muita alegria.
Tomara! Obrigada pessoal!

Bate papo na sessão da tarde

Respondendo às perguntas

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Maratona Leituração

Por essa eu não esperava: o projeto que fechou 2013 foi o Projeto Leituração, da Secretaria Municipal de Educação de São Leopoldo, organizado pela professora Juraci Moehlecke. A professora me convidou para fazer parte do rol de escritores do projeto, ao lado de nomes como André Neves, Wagner Costa, Walmor Santos, Dilan Camargo e Kalunga, depois de assistir a uma apresentação minha em um dos eventos que festejou os 10 anos do projeto Ler, outro belo projeto de incentivo à leitura, coordenado pela Feevale, e contando com a Faccat e o Grupo Editorial Sinos na confecção dos fascículos. Assim com o Ler, o Leituração tem como principal meta fomentar a leitura nas escolas, através do acesso gratuito aos livros e, posteriormente, um bate-papo entre leitores e escritores. Assim, me vi envolvida nesse trabalho que incluiu um encontro exclusivo com os professores da rede e, também, uma palestra na Feira do Livro de São Leopoldo.
Participar do Leituração foi muito muito especial, porque me levou a uma verdadeira maratona de visitas. No primeiro dia de encontro com os alunos, visitei nada menos do que quatro escolas e no último (mais "light") duas! Fiquei meio atontada com tanta pergunta, mas perfeitamente à vontade com todo o carinho, atenção e preparo nos encontros. Eu gostaria, mais uma vez, de poder colocar aqui todos os trabalhos que vi e fotografei, mas, infelizmente, a página ficaria muito pesada para baixar. Foram centenas de tarefas, cartazes, miniaturas, maquetes, releituras de texto, o que envolveu leitura e reflexão, tudo com muita criatividade para expressar o que os leitores sentiram ao mergulhar nas páginas de A CasaUm vulto nas trevasUm rio pelo meioA Máquina Fantabulástica  e, o que deu, para mim, o toque especial, a leitura de O Nalladigua. Teve escola que fez mais do que trabalho, fez autênticas superproduções! Sente só:



Essas imagens, logicamente, são apenas uma parte minúscula do imenso trabalho realizado nas escolas. Foram centenas de leitores que me devolveram em forma de carinho, cada palavra lida.  E, mais uma vez, a imagem é pequena demais. Eu gostaria de por aqui todos os retratos, todos os abraços, todos os beijos e todas as perguntas, inclusive as atrevidas e cabeludas... mas a infinitude da internet é uma ilusão, como sabe todo o usuário da rede.


Verdade seja dita, nem todas as visitas foram como seda. Houve alguma que calou fundo ao expor de maneira muito clara as difíceis condições que a Educação encontra para acontecer, que demonstrou sem pudor, a imensa tarefa que todos nós temos enquanto cidadãos. Em compensação, houve escolas que emocionaram ao demonstrar que é possível ter uma escola pública de qualidade, que busca, que faz e que estimula a criançada a encontrar seu lugar no mundo e construir seu próprio Futuro. São instituições que contam com o apoio da comunidade, que tem seu espaço garantido entre pais, familiares e vizinhos da escola. Sempre que isso acontece, encontramos espaços alegres e animados onde os alunos se esforçam por mostrar que eles não são apenas personagens passivos do processo, mas gente disposta a aprender, empreender e seguir adiante. Quem acredita que isso é possível, não importa de onde venha, sabe muito bem para onde vai. E chega lá.


  Assim que, um grande "muito obrigada" à Secretaria de Educação de São Leopoldo, na pessoa da professora Juraci. Vocês me deram, no final de 2013, a oportunidade de fechar com o coração batendo forte, um ano que foi muito, muito bom. Valeu!

Finalmente!

A minha visita à Escola Estadual Victor Issler aconteceu em novembro de 2013, mas começou em...outubro! É que o primeiro dia que eu tinha marcado com essa escola, foi marcado por vários problemas que começaram com um temporal violento e uma descarga elétrica que parou o Trensurb, e uma bomba d'água que inundou e parou a BR 116. Simplesmente, não havia como chegar à Porto Alegre!
Então, a visita ficou marcada para novembro. E que bom, porque tivemos um dia simplesmente maravilhoso, de sol pleno, um certo calor e muita tranquilidade.
Mesmo com um calendário apertado, por causa das comemorações de aniversário, a escola se deu ao trabalho de refazer a decoração original, que tinha preparado para me receber no mês anterior. Foi muito legal!
Para o bate papo, a garotada foi chegando, meio tímida, meio arteira, e fomos todos acomodados na sala de dança, um salão lindo, de chão de madeira e uma parede com espelhos, tudo o que uma professora de dança sonha. Me senti em casa!  Foram dois momentos de conversa muito legais, que valeram a espera, pelo menos para mim. Dê uma olhadinha nas imagens!

Hora dos autógrafos de uma conversa mais de perto   

Pose para a foto

Preparação para o bate papo

Um dos muitos trabalhos recuperados para a visita

Recepção de primeira

Sempre especial

Para mim, a Feira do Livro de Porto Alegre sempre é especial. Venho participando dela há vários anos, e cada vez vou me sentindo mais em casa. A cada edição, eu conheço um punhado de gente nova, e a cada edição reforço laços feitos de carinho e competência. E a cada ano, encontro velhos amigos, gente que fazia parte da minha vida e gente de cuja vida eu fazia parte sem saber.
Este ano a 59ª Feira do Livro de Porto Alegre espalhou-se por vários espaços alternativos do centro, já que o Cais do Porto estava de reformas e não foi possível usufruir da paisagem sempre maravilhosa do Guaíba (o que foi um "bem feito", para mim, que reclamei quando a Feira dividiu seu espaço, deixando a área infantil no Cais e a área adulta na Praça da Alfândega). Assim o primeiro evento foi a inauguração da exposição de trabalhos referentes ao projeto Tecendo Histórias, da 1ª CRE no Museu Hipólito José da Costa. Foi um momento muito legal, em que o museu, geralmente tranquilo e meio sisudo, recebeu uma turma de alunos e duas contadoras de histórias maravilhosas, que deram brilho e colorido à celebração.
Outro momento especial foi o bate papo com alunos, realizado no espaço de palestras de Livraria Paulinas, há mais um menos uma quadra da praça. Foi a minha oportunidade de apresentar o projeto "Sóis da América" tanto para as turmas, que acompanharam a apresentação de imagens referentes ao primeiro e ao segundo volumes, quanto para a própria Feira, já que em 2014, pretendo fazer o encerramento do projeto dentro da programação da 60ª Feira do Livro. E foram muitos encontros, palestras e assisti e até que tive a oportunidade de apresentar. Ah, não posso esquecer: o Colégio Estadual Floriano Peixoto apresentou a segunda e última parte do curta "Os Gênios do Museu", baseado (o final) no texto de Eros Corrêa, e que fez parte do projeto Tecendo Histórias (assista ao vídeo final clicando AQUI). Foi bem à sombra do Museu, um momento realmente encantador.
Agora, o evento sobre o qual realmente estavam todas as atenções foi o Desafio Lord Byron, organizado pela Feira com a coordenação de Duda Falcão e acolhido de braços abertos pela Biblioteca Pública do Estado. O evento previa reunir um grupo de escritores do gênero Fantástico durante uma noite, nas dependências da Biblioteca, para escrever... contos fantásticos. O resultado dessa noite muito divertida e mágica será apresentado ao público na 60ª Feira do Livro de Porto Alegre, com a publicação de um volume com os trabalhos. Foi um evento internacional, com escritores da Argentina, França, Portugal, EUA, e do Brasil. Tirei quilo de fotos mas, infelizmente, só vou poder mostrar algumas para vocês.  Tem uma crônica que escrevi logo após o evento no blog Porteira da Fantasia (para visualizar a crônica "A biblioteca, à noite", clique AQUI). O encontro terminou o dia seguinte, com uma série de palestras das quais pude participar em companhia de Felipe Castilhos, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão. Nossa mesa redonda focou especialmente a presença do Folclore na produção atual da Literatura Fantástica no Brasil
E foi isso... e muito mais. Confira as imagens e visite os links. Você vai gostar.


Algumas das participantes da inauguração da mostra de obras
produzidos pelos alunos do projeto Tecendo Histórias, da 1ª CRE

O encontro com os alunos no auditória da Livraria Paulinas

O grupo de escritores do Desafio Lord Byron, na escadaria da Biblioteca Pública do Estado. Bem à direita, embaixo, Luiz Augusto Fischer, patrono da 59ª Feira do Livro de Porto Alegre, que nos honrou com a sua presença
A mesa redonda sobre a presença do Folclore na Literatura Fantástica Brasileira de hoje

Sessão de autógrafos da coletânea "Ficção de Polpa: Aventura!" da Não Editora
Alguns dos integrantes da equipe de organização e apoio daFeira do Livro de Porto Alegre: incansáveis

Música no coração

Minha primeira ida à Nova Hartz, este ano, foi uma visita à Escola Estadual de Ensino Fundamental Germano Hessler. Foi uma visita muito calorosa, em uma escola repleta de crianças sorridentes, inteligentes e interativas, com um pátio cheio de árvores e um campo lindo no terreno nos fundos da escola. Um lugar ideal para a gente respirar profundamente.
A criançada e os professores prepararam uma visita e tanto. Foram lidos As asas do dragãoUm vulto nas trevas, Contos do Sul e Um rio pelo meio. Além de conversar com os alunos dos turnos da manhã e da tarde, tive a oportunidade almoçar com eles e depois ler As asas do dragão para um grupo, na hora da sesta. Eu até perguntei se eles não estavam enjoados da história, que eu sabia ter sido bem trabalhada pelos professores. As crianças disseram um categórico "não" à minha dúvida.Foi muito lega. Fazia anos que eu não contava histórias assim, oralmente, então foi muito bom ter esse momento tão delicado. Algumas crianças cochilaram, outras aproveitaram aqueles momentos para conversar um pouco mais. E depois, no bate papo da tarde, eles me brindaram com um rap feito por eles mesmos, cantado em coro para toda a escola. Baita homenagem! Além dos muitos trabalhos e do carinho de todo mundo, poder voltar para casa como tema de canção é, no mínimo, muito, muito bom. É uma carinho especial, que se guarda no coração.

 Este é o trabalho feito sobre o livro Um vulto nas trevas

A hora dos autógrafos, também é o momento
de aproveitar e bater 
um papo mais pessoal

Olha a galera, aí, gente!

Apresentação do coral infantil

Alguns dos muitos trabalhos realizados pelos alunos da EEEF Germano Hessler.
Este é sobre o conto A Cisterna do livro 
Contos do Sul

Calor humano

Pensa que acabou? Pois não acabou não! Depois da Escola Anhatenguá, ainda havia uma agenda muito extensa a cumprir. E o próximo compromisso foi a visita à Escola Estadual Bernardo Petry, em Vale Real, uma cidadezinha pequenina, acomodada na subida da Serra, alguns quilômetros depois de Feliz.
Lembro que quando saí de casa fazia um certo frio, Mas, também, o céu prenunciava um daqueles dias perfeitos, de sol, e céu azul. E não deu outra. Ao chegar na escola, apesar da sombra fresca, o casaco já começou a ficar demais. E logo depois, com o calor da recepção, só me restou sentir a alegria se espalhando.
Minha visita à Escola Estadual Bernardo Petry ficou dentro do calendário do projeto Ler a Valer, da Câmara Riograndense do Livro. A escola optou por trabalhar os independentes Um rio pelo meio, Um vulto nas trevasContos do Sul, e o livro da Artes e Ofícios aurum Domini - O ouro das Missões. Também foi encomendado o meu mais vendido A Máquina Fantabulástica, mas problemas com a entrega do livro impediram que os trabalhos ficassem prontos à tempo da minha visita. Em outra oportunidade será.
Mais uma vez, tive aquela certeza: escola pública funciona, sim senhor. Apesar dos pesares, que são muitos, que são duros, que chegam a dar vergonha. Eu, como contribuinte, sinto pena ao perceber o quanto as escolas públicas vão sofrendo com o Tempo e a manutenção estreitada pela bur(r)ocracia da máquina do estado. Me dá uma certa vergonha, saber que esse é o espaço que é oferecido às nossas crianças e aos nossos jovens como espaço destinado ao ensino público. Mas, ao mesmo tempo, sinto um orgulho imenso, e uma fé sem tamanho nos professores, nos diretores e nos alunos que, apesar do desconforto, da luta diária pelo básico, não desistem. Eles estão lá, ombro a ombro, mesmo que a gurizada não saiba disso, construindo o futuro do nosso país. Escolas como a Bernardo Petry me levam a crer que mais vale o querer e o fazer, do que as pesquisas que nos assombram todos os anos. Vi, como sempre, trabalhos criativos, pessoas engajadas na educação, gente com vontade de realizar seus projetos o melhor possível, e que por isso mesmo, terminam realizando projetos muito bacanas, que valorizam a união, a criatividade e a capacidade de cada um. Maquetes, resumos, poesias, e até um grande mural reproduzindo a fachada da ruína de São Miguel das Missões, foram apenas uma das coisas que pude apreciar. Houve interação, interesse, atenção, e leitura.
O que precisamos, eu acho, é Fé no que se faz, como o pessoal de Vale Real. O restante virá por força do fazer. E trará consigo, os frutos que tanto almejamos.

Um dos livros lidos foi Contos do Sul que teve um
destaque especial, como sempre,
para "A Cisterna"

Todos os contos ganharam uma maquete, inclusive "O Farol"

A fachada da ruína de São Miguel das Missões, reproduzida pelos alunos

O pessoal da Bernardo Petry, participando, atentos, do bate papo

Emoção à flor da pele



Vai ter gente dizendo que faz tempo, eu sei, mas as visitas, este ano foram muitas e se concentraram no trimestre setembro-outubro-novembro. Não importa. Não importa o Tempo. O Tempo é invenção dos homens. O que importa é isso: no dia 30 de setembro (só para situar, porque parece que foi ontem, parece que foi agora mesmo), eu fiz a visita mais emocionante dos meus 30 anos de carreira e por ela agradeço principalmente à Patrícia Langlois, da 1ª CRE, que me convidou. E também agradeço à liderança da Aldeia Anhatenguá, de Porto Alegre, que permitiu a visita.
É que no último dia de setembro realizamos uma visita à aldeia, para conversar com os alunos da escola estadual instalada dentro do espaço social da Anhatenguá. E pela primeira vez na minha vida, pude olhar nos olhos dos personagens que me acompanharam ao longe de trinta anos de carreira. Eles estavam lá, nas minhas pesquisas e na descoberta pessoal de um continente muito maior do que eu imaginava; estavam lá, nas primeira linhas de A Noite da Grande Magia Branca e continuam lá, me encarando desde a História do meu país.
A Aldeia Anhatenguá é mantida por um grupo da etnia mbyá-guarani, em Porto Alegre. A visita  foi adiada algumas vezes, por conta de pequenos percalços, ligados, geralmente, à logística da vida moderna. Nada que a paciência não vença.
E até foi melhor esperar, como a vida tem me demonstrado frequentemente. O encontro aconteceu em uma tarde linda, quente, dominada por um céu azul anil, e brancas nuvens. Saímos do centro da capital, o motorista da CRE, Patrícia Langlois, Christopher Kastensmidt, Doris Dick (na qualidade de fotógrafa) e eu, e rumamos através do trânsito ruidoso, veloz e agressivo dos dias de hoje. O trajeto foi longo, marcado pela expectativa, que a gente disfarçava falando de outras coisas, sobretudo dos projetos que tínhamos por diante, com a 59ª Feira do Livro de Porto Alegre logo na virada do calendário. Por fim, depois de deixar a via rápida e entrar por uma estradinha de chão, uma curva a mais e chegamos.
Lembro da Patrícia mostrando pela janela do carro alguns dos principais pontos: a casa do cacique, construída por alunos da URGS baseados nas casas tradicionais indígenas, mais isto e mais aquilo e então chegamos à casa onde funciona a escola estadual bilíngue. E aí é que me vem a primeira sensação de ter chegado ao lugar certo: já de dentro do carro vi uma menina na janela de uma casa ao lado da escola. Era pequena e olhava pela janela da casa dela, diretamente para mim. Sorriu. Sorri de volta. Abanei. Ela abanou. Se você não esquecer como foi ser criança, você sempre saberá fazer amigos. Em todo o caso, o sorriso foi especial: foi um reconhecimento. Mas não me diga de quê, porque eu não sei, e não quero que você me diga que saiba. Guarde isso no seu coração. A menina era pequena e eu jamais a tinha visto. E abanamos uma para a outra como velhas amigas.
Na escola, ficamos um pouco no alpendre, sentados no banco, conversando com a diretora da escola. Vieram uns viralatas caçar um carinho. A menina saiu da casa, acompanhada de duas outras: uma mais ou menos do seu tamanho, e uma bem pequena, todas elas de olhos amendoados, cabelos penteados pelo vento e a pele de bronze perfeito. Foram brincar debaixo de uma árvore. Depois vieram se aprochegando. Elas não falam uma palavra em Português, eu não falo Guarani. Começamos uma espécie de diálogo de caretas e sorrisos. Tudo era de uma calma incrível, como se fosse um outro planeta. Dava para ouvir a voz do professor dentro da sala, os latidos, o piado dos pássaros, o vento nas árvores. Verdade que tínhamos saído do centro da capital há alguns minutos?
Depois o professor nos convidou para entrar. A aula estava terminando e a merendeira da escola estava preparando a comida. A turma inteira se virou e sorriu para nós, alegremente, desejando "bom dia". O coração batia depressa, depressa. Sorrimos, acenos, nos apresentamos. E tratei de aprender a dizer "bom dia" em guarani (mas agora, gente querida, mil desculpas peço: não tenho cabeça para idiomas. Esqueci como se diz. Quando eu for de novo, vocês vão ter me ensinar mais uma vez). Deve ter saído estranho, porque eles riram. Eu também.
Dali, fomos convidados a fazer uma visita na aldeia. A cunhã mirim estava me esperando do lado de fora. Nos demos as mãos. A outra cunhã também. Fomos andando pela picada no meio do campo verde sarapintado de flores simples e amarelas. Fomos ver o pessoal que trabalhava com o artesanato, preparando as esculturas que são vendidas no centro, sob o olhar de um senhor sorridente. Mas sério. Quando você vai visitar uma aldeia há muitos sorrisos sendo trocados. E muitos olhares também. Olhares que falam. Eu gosto. É intenso. É forte. A gente da cidade, às vezes, esquece da profundidade que tem um olhar verdadeiro. Nos chamaram para continuar a visita, a cunhã-mirim me puxou. Mais adiante havia uma sanga. Aprendi a dizer "água" em guarani: Yi. Ela tentou me ensinar a dizer "flor". Não fui capaz de aprender. Ali adiante fica a estufa, onde a aldeia cultiva mudas de árvores nativas. Havia uma ameixeira cheia de frutas. O cacique a plantou. Confundi os idiomas, misturei guarani e caigangue. Me corrigiram: "catu" é que é "bonito" em guarani. Bonito e bom. Na volta, ao passar pela sanga, a cunhã-mirim me contou que ali tem peixe, "pirá", e cobra, "mboi". Isso eu sabia o que era. E acho que ela não gosta das mboi. Seguimos passeio. Tivemos o privilégio de conhecer a parte mais retirada da aldeia, a reservada aos moradores. Depois voltamos. Era hora de encontrar os alunos com que fôramos conversar, os adolescentes, que já tem conhecimento maior da língua Portuguesa.
E foi aí, ao cumprimentar a turma, que me emocionei. A voz retorceu, embargada. O pessoal sumiu atrás de uma cortina de lágrimas. Eu sei que os guarani não tem problemas com lágrimas, mas eu tenho. Não deixei que caíssem. Respirei fundo mantive a voz. Falei do meu trabalho, expliquei porque tinha me emocionado tanto. E tive o prazer de deixar com eles, de presente, na esperança que algum dia tenham a paciência e a generosidade de me ler, A Noite da Grande Magia BrancaO Nalladigua e A Flauta Condor. Foi como retribuir, pelo menos um pouquinho, o muito que essa cultura me deu em forma de temas, lendas, mitos e História. Minha História, a de todos os brasileiros. Os alunos foram tímidos (como todos os adolescentes, aliás, sobretudo os que nunca me leram. Por que haveria de ser diferente?), mas ligados. Espero que você realmente não se surpreenda se eu comentar que depois de colocar o endereço do meu site no quadro negro, um dos rapazes puxou o smartphoine dele. O professor fez as honras da casa, contou um pouco da sua história para nós, escritores que inventamos vidas, como se a Vida não tivesse suas próprias histórias para contar.
Na hora de ir embora, a cunhã-mirim voltou, tão diferente que estava irreconhecível: tinha mudado de roupa, penteado os cabelos com um pente, comportada. Parecia triste, e quando embarcamos no carro, fez um muxoxo. Mas eu sei que ela estava sorrindo apenas um minuto depois que fomos embora. Tem de ser assim. A cunhazinha pequenininha nos acenou com um olhar surpreso. Acho que se perguntava de onde tínhamos vindo e para onde íamos. A outra menina se juntou às duas primeiras. Acenaram, quando o carro partiu. Foi assim.
Saí de lá flutuando, a alma lavada e renovada. Pronta para mais trinta anos de vida, e tantos mais, desde que o olhar da cunhã-mirim acompanhe minha lembrança sempre.
E apenas dois minutos depois de estar no centro de Porto Alegre, esperando o ônibus que nos levou até o trem, emersa no rugido dos carros, respirando as nuvens de fumaça e o cheiro seco e ruim do óleo diesel e dos pneus no asfalto, eu me perguntava, pela enésima vez, o que estamos fazendo com nossa vida e nosso planeta? Com o nosso Tempo, que inventamos com tanto zelo e gastamos sem pudor, tentando transformá-lo em dinheiro, como se isso fosse possível? Nosso tempo, nossa vida. Quando será "nossa felicidade"?
Por certo, antes que você me pergunte: já que gostei tanto da visita, cadê as muitas fotos que a Doris deve ter tirado? Sinto muito, foram poucas. Primeiro de tudo, porque foi a orientação que recebemos: tirar poucas fotos e, de preferência, preservando a identidade das pessoas (coisa mais natural do mundo, na verdade). E segundo porque, sinto muito, essa foi uma visita para viver e guardar no coração. Lá onde as fotos são tão ínfimas que não chegam, sequer aos pés do que foi: o cheiro, a cor, o vento, o sol, as crianças, a sensação de estar pisando leve no chão de terra batida. Ficam as palavras. Elas tem de valer mais do que mil imagens - ou eu, simplesmente, em trinta anos não aprendi o meu ofício de escritora. Abraço para vocês!

Eu e Christopher Kastensmidt no bate papo com os alunos da Anhatenguá

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Em Taquara, Escola Dorothéa Schafke

 Outra visita durante a Feira de Novo Hamburgo, não foi em Novo Hamburgo, mas em Taquara. Aconteceu na Escola Dorothea Schafke, durante a Feira de Livros da própria escola, e foi um convite muito bacana. A criançada estava lendo A Máquina Fantabulástica, mas o papo girou em torno do meu trabalho mais voltado para a Fantasia de fundo folclórico. E como não poderia ser, se ao chegar, me deparei com um mural sobre Simões Lopes Neto? Depois conversamos sobre (e eu autografei alguns) aurum Domini - O ouro das Missões, que sempre é uma alegria. É tão bom ver um livro continuar sua caminhada junto aos leitores, é uma sensação perpetuidade deliciosa. Interessante, como existem anos nos quais vou com frequencia à determinadas localidades. Este ano, foi Taquara e o Vale do Paranhana (para locais ainda tenho por visitar!) Obrigada ao pessoal da região, pelos convites, e aos alunos que estão lá, firmes na leitura! Valeu!

Alguns dos trabalhos produzidos pelos alunos

A garotada lotou o salão de esportes para a Feira do Livro e para o bate papo

   Confraternização com os professores,
antes da conversa com os alunos